Você deveria ler este post: Sobre achar que a vida dos outros é melhor do que a minha

Você deveria ler este post – Sobre achar que a vida dos outros é melhor do que a minha - Quantas vezes por dia a gente deseja ser outra pessoa, estar em outro lugar, ter outro emprego/corpo/relacionamento/sofá? Não estou falando das grandes insatisfações óbvias que sentimos se estamos claramente descontentes no emprego ou no relacionamento, nem das crises de identidade que a cada tantos anos nos levam a repensar nossas escolhas e nos impulsionam a mudar, renovar, crescer. Me refiro a algo muito mais sutil, um incômodo constante e persistente como o som do alarme de um carro ao longe, que deixamos de ouvir depois de alguns minutos, não porque o barulho parou, mas porque nos acostumamos com ele. EU chamo isso de "síndrome da inadequação" e falo mais sobre ela neste texto. Clique para ler mais. :: verenakacinskis.com

Tem um movimento muito forte acontecendo no mundo hoje. Na minha opinião, é o mal da década, do século, do milênio. Talvez sempre tenhamos sido assim, talvez não. Não sei. Eu estou aqui há pouco menos de 37 anos, só posso me referir a estas últimas décadas. Mas se a sua experiência de vida for mais longa do que a minha, por favor me diga se podemos expandir essa janela um pouco mais. Eu chamo essa epidemia de síndrome da inadequação. E acho que estamos todos contagiados. Sem querer cair em purismos, aviso que vou esbarrar em alguns clichês. Mas vamos lá, este assunto é mesmo um enorme clichê e estamos mais do que afundados nele.

Quantas vezes por dia a gente deseja ser outra pessoa, estar em outro lugar, ter outro emprego/corpo/relacionamento/sofá? Não estou falando das grandes insatisfações óbvias que sentimos se estamos claramente descontentes no emprego ou no relacionamento, nem das crises de identidade que a cada tantos anos nos levam a repensar nossas escolhas e nos impulsionam a mudar, renovar, crescer.

Me refiro a algo muito mais sutil, um incômodo constante e persistente como o som do alarme de um carro ao longe, que deixamos de ouvir depois de alguns minutos, não porque o barulho parou, mas porque nos acostumamos com ele.

A grama do vizinho

Tenho ficado atenta a uma inquietação que surge assim que começo a acessar o conteúdo de alguns sites, blogs, revistas etc. É uma mistura de excitação e ansiedade, um sentimento que eu não consigo interpretar como bom nem ruim, e que deixa uma marca sutil porém perceptível que diz “está faltando isso na minha vida”. Não estou indo em direção a uma discussão do tipo Ter X Ser. Talvez esse seja tema para outro post. Eu quero mesmo é dizer que caímos facilmente na armadilha de absorver o mundo da ficção como um mundo real.

Quando consigo estar centrada e atenta a isso, me pego com frequência desejando gramados virtuais mais verdes. A grama do vizinho, sobretudo na internet, só é mais verde porque a vemos de longe, de onde os olhos não captam as marcas de adubo e as imperfeições. O Chris Cornell, um dos meus letristas favoritos, diz “The grass is always greener where the dogs are shitting”, ou seja, a grama é sempre mais verde onde os cachorros, bem… fazem cocô.*

“The grass is always greener where the dogs are shitting” Chris Cornell

Mas deixa eu voltar um pouco para a inadequação porque eu acho essa palavra importante. O que mais me inquieta desse movimento todo é que ele evidencia nossa falta de presença, o estar inteiro e completo em tudo o que fazemos. Nós vamos absorvendo informações o tempo todo, mesmo quando não estamos atentos. É o cara malhado na capa da revista na fila do supermercado, as frases de efeito e cheias de segundas intenções nos slogans das propagandas que você olha só de relance no outdoor, e até as fotos perfeitamente enquadradas de pratos de comida dos meus sites favoritos de receitas.

Você deveria ler este post – Sobre achar que a vida dos outros é melhor do que a minha - Quantas vezes por dia a gente deseja ser outra pessoa, estar em outro lugar, ter outro emprego/corpo/relacionamento/sofá? Não estou falando das grandes insatisfações óbvias que sentimos se estamos claramente descontentes no emprego ou no relacionamento, nem das crises de identidade que a cada tantos anos nos levam a repensar nossas escolhas e nos impulsionam a mudar, renovar, crescer. Me refiro a algo muito mais sutil, um incômodo constante e persistente como o som do alarme de um carro ao longe, que deixamos de ouvir depois de alguns minutos, não porque o barulho parou, mas porque nos acostumamos com ele. EU chamo isso de "síndrome da inadequação" e falo mais sobre ela neste texto. Clique para ler mais. :: verenakacinskis.comO cérebro vai captando essas informações, categorizando e criando um banco de informações que vai se repetindo até virar referência.

O que vem junto é esse “barulhinho silencioso” ao qual eu me referia antes, que nos deixa com a sensação incômoda de que algo está faltando, algo não está certo, somos/estamos inadequados:

“Preciso malhar mais, preciso comer menos, preciso mudar minha sala, preciso de outro corte de cabelo, preciso colocar meu filho no inglês. Por que a minha vida/sala/esposa/receita de torta de morango não é como a dessas fotos? Eu provavelmente não deveria ser como eu sou… eu deveria ser como essas pessoas são. Eu sou inadequada(o).”

Não quero reduzir o problema às imagens lindas de casas incríveis na beira da praia e de pratos de comida super bem fotografados no Instagram. Eu não vou culpar os marketeiros, os jornalistas, os blogueiros por nos mostrarem somente uma parte da realidade. Na-ão. A responsabilidade é nossa mesmo, por nos darmos tão pouco crédito, por cuidarmos tão pouco de nós mesmos que projetamos nossa felicidade na grama do vizinho em um piscar de olhos.

A vida real é muito rica, diversa e abundante para focarmos apenas na imagem estática do outdoor. O que falta é mais presença, mais criatividade, mais amor próprio. Bastaria uma respiração completa – inspiração-expiração – para voltarmos ao nosso centro e percebermos “hmm, essa história é ótima mas isso é só uma parte. E eu já estou construindo a minha”.

Tenho exercitado essa presença e respiração quando percebo que estou me perdendo nas gramas alheias das imagens perfeitas. E programei meu alarme interno para apitar quando minhas divagações estiverem desembocando nos “deverias”. Tento olhar com carinho de onde vem essa ansiedade de mudança, olho para o meu próprio jardim e verifico se ele já não está verde.

Lembre-se sempre que você já é completo(a) do jeitinho que é e não precisa buscar do lado de fora mais nada para te preencher. Você não deveria ter que fazer nada do lado de fora para ser mais feliz do lado de dentro. Você só deveria, mesmo, ler este post. ;)

* Chris Cornell é vocalista do Soundgarden. A frase citada é da música Outshined.


:: todos os jardins deste post são da lieke van der vorst ::