Um relato autobiográfico: Como eu aprendi a crescer sem abrir mão de quem eu sou

Um relato autobiográfico – Como eu aprendi a crescer sem abrir mão de quem eu sou - Eu descobri que crescer, me expandir, e ser o que eu chamo de a melhor versão de mim não é abrir mão do rock, da balada, da maquiagem, do gluten, da carne, e até de um certo grau de ceticismo, que eu ainda cultivo como proteção contra autoenganos. Crescer é incorporar, aceitar, agregar. É ouvir rock e mantras, beber cerveja e chá, ir para a balada e meditar. :: verenakacinskis.com

Para escrever este post eu preciso falar um pouco de mim. Tem uma frase que eu ouvi durante toda a minha infância e adolescência que define um pouco como eu costumava viver neste mundo:

“Verena, antes de te conhecer eu te achava suuuuper antipática mas agora que te conheço melhor, te acho suuuper legal!” (insira voz feminina e entonação de adolescente).

Eu era séria, meio carrancuda. Mas não era de propósito. Sei lá, meu rosto em estado natural de repouso e relaxamento era “fechado”, como costumavam me dizer. Tem um episódio marcante que aconteceu quando eu tinha uns 16 anos e fui com minha família para a Disney, que ilustra isso muito bem.

Estávamos assistindo ao desfile dos personagens da Disney, que acontecia ao meio-dia na avenida principal de um dos parques, cheio de música e coreografias, e eu estava adorando, achando aquilo super alegre, colorido, animado. Tinha um homem desfilando com um par de patins, e ele ficava indo de lá pra cá contornando os personagens e fazendo piruetas. Ele não interagia com o público, é importante frisar. O papel dele era… desfilar.

Mas eis que esse cara passa do meu lado e grita alguma coisa para mim do alto dos seus patins, assim meio de passagem, porque ele não parou para me dizer, ele falou enquanto passava. Na hora eu não entendi o que ele disse, fiquei até um pouco na dúvida se era mesmo comigo, mas meus pais e irmãs me asseguraram de que eu havia sido a receptora daquela mensagem.

Dias depois voltamos para casa e meu pai estava editando o vídeo que ele – felizmente – havia filmado daquele momento. Olhei para a tela da TV e lá estava eu, lá estava o cara, e com mais calma e atenção, eu pude ouvir o que ele falou. “Smile on your vacation!”. Sorria nas suas férias. Foi isso que ele me disse. Até hoje eu consigo ouvir a voz, a entonação, o sotaque, tudo. Ficou gravado no meu ouvido esquerdo, que era o lado que estava virado para a tal avenida naquele momento. Mas o mais maluco de tudo isso é que eu estava a-do-ran-do o desfile. Sei lá, meu sorriso devia aparecer só do lado de dentro.

Junto com a minha seriedade eu carregava também um tanto de dureza. Era super crítica! E exigente. Me cobrava muito, cobrava muito dos outros, dos professores, dos livros, dos cidadãos do mundo.

Não era cobrança do tipo “Poxa, você não me ligou ontem à noite”, era mais “Onde está a ética do mundo? Onde vamos parar? Cadê a cidadania? Como pode alguém achar normaaaaal estacionar o carro desse jeito? Como as pessoas têm coraaaagem de matar aula?”. Eu tinha 12, 13, 17, 22 anos e, bem, não é mesmo fácil para uma adolescente carregar nos ombros a – suposta e autoimposta – responsabilidade de enxergar sozinha as falhas do mundo!

Do lado de fora eu era muito feliz, estava vivendo a minha vida normalmente com meus amigos, festas, paixonites, estudos, muita música, essas coisas normais do dia a dia de uma adolescente. Mas por trás da leveza do dia a dia estava essa visão de que o mundo era cheio de falhas. O que eu estava vendo, acabei descobrindo mais tarde, eram minhas próprias falhas. Projetadas em 3D de alta resolução no mundo ao meu redor.

Ok, para onde estamos indo com este relato? Não sei se você conhece o conceito de Sombra. Esse é um termo da psicologia junguiana já bem conhecido hoje, que diz que nós escondemos do lado de dentro, lá no inconsciente, todos os aspectos da nossa personalidade que não vivemos do lado de fora. Se eu era dura, crítica, perfeccionista e séria no meu dia a dia, adivinhem o que estava escondido, guardado, sufocado lá do lado de dentro? Minha leveza, minha permissão para ter falhas, a suavidade.

Eu achava BREGA – assim em caixa alta mesmo – e morria de vergonha alheia quando ficava perto de manifestações muito explícitas de “amor e gratidão”, comecei a estudar medicina energética morrendo de medo de ser confundida com uma “hippie harebô” e quase saí correndo quando, no primeiro dia do curso de Reiki I, a professora colocou um CD de música indiana com direito a cítara e mantra cantado. “Vou ter que ouvir isso? Mas eu sou do rock!”

Eu estava vivendo o mundo pela metade, entende? Nós vivemos o mundo pela metade todas as vezes que julgamos, apontamos o dedo, nos distanciamos daquilo que tememos. Preconceito é só uma outra definição para medo, e a Sombra guarda nossos maiores temores.

Uns podem ter medo de falar em público (essa pessoa tem um orador de primeira em sua Sombra) e outros, como eu, temem a leveza, a espontaneidade, o “hippie interno”. Viver assim, pela metade, é tão… insuficiente!

Se você ainda não parou de ler este texto, é um bom sinal! Era com você mesmo que eu queria falar. :) Na verdade, é para isso que eu escrevo este blog. É a forma que eu encontrei de falar de um jeito simples, pé-no-chão e prático sobre assuntos que me fariam torcer o nariz anos atrás, como amor próprio, energias, autoconhecimento, felicidade, leveza, intuição, e mostrar que esses temas não são de interesse de apenas um grupo específico. Eles são humanos, universais. É o meu jeito de reconhecer e agradecer os esforços da Verena de 29 anos que topou, mesmo cheia de preconceitos e resistências, ficar até o final da aula de Reiki (e até gostou do mantra cantado, devo admitir).

Eu descobri que crescer, me expandir, e ser o que eu chamo de a melhor versão de mim não é abrir mão do rock, da balada, da maquiagem, do gluten, da carne, e até de um certo grau de ceticismo, que eu ainda cultivo como proteção contra autoenganos. Crescer é incorporar, aceitar, agregar. É ouvir rock e mantras, beber cerveja e chá, ir para a balada e meditar.

Mais tarde, quando algumas daquelas coisas (como comer carne), deixaram de fazer sentido para mim, então eu pude me desapegar delas sem pesar, sem sentir que estava abrindo mão de uma parte da minha história, da minha personalidade, de mim.

Se eu consegui ser mais leve, mais segura, mais aberta, qualquer um pode conseguir também!


:: foto do Fabio Lontra, aka marido ::