O corpo é um mapa (e o seu papel é decifrá-lo).

Eu sempre acabo repetindo isto: se tivessem me ensinado química, física, biologia, geografia e todas as outras matérias da escola do jeito que eu (re)aprendi nos últimos 10 anos, teria sido muito mais divertido estudar. Aliás, acho que eu, de fato, teria aprendido muito mais do que consegui na época.

Eu penso que a maioria dos assuntos que a gente aprende no colégio parecem áridos porque falta aquele tchã-nan, aquele contexto, aquela informação que faria as nossas mentes de 13, 14, 15 anos fazerem uau e ficarem boquiabertas: está tudo ligado, conectado, misturado, gente!!

Na aula de física, falar sobre a lei da gravidade podia resultar em uma aula sobre os batimentos cardíacos e o sistema circulatório, que foi um jeito que o corpo encontrou de fazer o sangue subir pelas pernas, vencendo a gravidade, quando estamos em pé ou sentados.

Na aula de biologia, para entender uma das funções da glândula pineal, poderíamos entrar no estudo do movimento de rotação da Terra, que resulta no dia e na noite. A pineal produz melatonina, o hormônio do sono, quando está escuro e deixa de produzir quando está claro. Se nós não vivêssemos em um planeta com dia e noite, talvez nem tivéssemos uma pineal. Um só existe por causa do outro.

Na aula de geografia, ao explicar o movimento de translação da Terra e as quatro estações, falaríamos sobre o reflexo de cada estação na nossa psique: ficamos mais expansivos e sociáveis no verão, mais recolhidos e precisamos de mais descanso no inverno. Como as plantas e os animais.

Tenho certeza que todo mundo conseguiria entender essas interconexões. E algo me diz que teríamos outra relação com o planeta (e com o corpo) se fosse assim.

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Seguindo essa linha de raciocínio, estou aqui para contar a vocês uma das coisas mais sensacionais que eu aprendi na minha vida: o nosso corpo é um mapa. Nada, nada, nada do que acontece nele é por acaso.

Temos um tesouro nas mãos – ou melhor, vivemos dentro de um mapa do tesouro – e uma das nossas funções é desvendar nossos sintomas, desconfortos, dores, para entender o que está acontecendo. Falei que é uma de nossas funções porque é isso mesmo, como escovar os dentes, educar os filhos, jogar papel no lixo.

Mas ok, eu entendo que essa talvez seja uma ideia nova pra muita gente. A gente não aprende que em fases de muito medo, quando estamos diante de um desafio que nos assusta, seja o nascimento do primeiro filho ou uma mudança de emprego, é normal sentirmos dores pontuais nos joelhos, porque ele guarda os nosso medos. Também não sabemos que as alergias são o correspondente físico de um emocional muito-muito sensível, que acha que precisa se proteger do mundo. Isso não é místico, nem “bonitinho e interessante, mas não serve pra mim”. Isso é real, muito real! É como o organismo funciona, o seu, o meu, o de todo mundo.

A relação que nós temos com os nossos sintomas físicos é de puro distanciamento e desconexão. Eu acho isso muito ruim, porque ficamos desempoderados. Você está lá, com mais uma crise de enxaqueca, e se sente impotente, refém do seu corpo.

Diante de qualquer sinal de desequilíbrio, desde uma dor física até uma crise de ansiedade, nosso movimento é marcar uma consulta com um médico e esperar que ele saiba o que fazer para apagar aquele sintoma.

Procurar ajuda é ótimo, mas do jeito que lidamos com o nosso corpo hoje em dia, perdemos grandes, enormes oportunidades de aprender para onde aquele sintoma quer nos levar. Eu te garanto, se você seguir o mapa que ele te mostra, você vai encontrar um tesouro. E a beleza desse processo é que com o tesouro, vem a cura.

O corpo não dói por acaso. Mesmo que você tenha uma predisposição genética a desenvolver diabetes, ou mesmo que esteja com tendinite no punho por causa do esforço repetitivo no trabalho, essas questões só se desenvolveram porque o seu pâncreas e o seu punho estavam fragilizados de alguma forma. E essa fragilidade vem do jeito que você está levando a vida, vem dos seus medos, das suas raivas, das suas frustrações e ansiedades.

E olha, não tem nada de errado com os medos, as frustrações e todo o resto. Eles fazem parte da vida. Não existe essa história de estar sempre bem, sempre feliz, sempre de boa. Só se você for um robô. Aliás, nós estamos aqui para sentir tudo isso, porque é nos momentos de conflito que nós crescemos, aprendemos, nos desenvolvemos. A ideia não é fugir da dor, e sim entendê-la. A vida é dinâmica, nosso corpo é dinâmico, nossa psique é dinâmica. As gastrites, as crises de ansiedades, as insônias se desenvolvem não por causa dos problemas da vida, e sim por causa da nossa desconexão. O corpo fala, a gente não ouve. Aí, gente, ele grita!

“E por onde eu começo?”

bfa89a9b7950ed0c8da11b982331a387É a pergunta que eu imagino que você esteja se fazendo.

Tomar um remedinho para aliviar a dor de cabeça ou um laxante para soltar o intestino pode ser prático e útil, mas eu te proponho uma coisa: que tal se, além de tomar o remédio e fazer o desconforto sumir, você parar por uns 2 minutos e tentar entender de onde ele está vindo? Que tal se essa virar uma prática normal e corriqueira na sua vida?

Que tal mudar o paradigma, e em vez de achar que você tem que calar o sintoma com um remédio, você começar a pensar que tem que ouvir o que o sintoma quer te dizer?

Porque, sejamos sinceros, mesmo quando eu ouço as pessoas me dizerem que vai dar muito trabalho, que não sabem por onde começar, que isso é papo de psicóloga ou que “bem que eu queria, mas não tenho tempo”, a verdade é que se a gente não se mexer, nada vai mudar.

Nossa sociedade está doente porque nós estamos doentes. Ser sustentável não é só reciclar o lixo e economizar água. Tem outra coisa que deveria estar na lista de melhores práticas para preservação do meio ambiente: o autoconhecimento.

O amor que dedicamos ao planeta é diretamente proporcional ao amor que dedicamos a nós mesmos. Aliás, acho que quero refrasear: o amor que dedicamos à humanidade e ao planeta, é diretamente proporcional ao amor que dedicamos a nós mesmos. O nosso dever, como cidadãos, é pagar os impostos e cuidar de nós mesmos, sacou?

Então ó, além de reciclar o seu lixo (que é uma coisa ótima e linda que você faz por todos nós), respira e cuida de você por alguns minutos todos os dias. Vai dar trabalho, sim! Mas só um pouquinho.

Tomar um remédio para a gastrite em vez de procurar um terapeuta ou meditar parece ser mais fácil, mas é só enganação da nossa psique querendo fugir, com medo do que vai encontrar se abrir a caixa de pandora e enxergar tudo o que está lá. Deixa eu te dizer uma coisa: a caixa de pandora é um baú de tesouros. E nada é tão difícil que você não consiga resolver. ;)

Para quem não sabe por onde começar, sugiro que vá para a série “Muito prazer, eu sou o seu corpo” que eu estou escrevendo no blog. Aquilo já é um começo. Também tem muitos livros e vídeos legais também por aí. Mas não se prenda só ao que vem de fora. Comece a se perceber, nem que seja durante 2 minutinhos por dia, e eu te garanto que você vai entender do que eu estou falando!

Se algo deste texto tiver mexido com você e quiser compartilhar, escreva aqui embaixo nos comentários. As discussões são a melhor parte do aprendizado.


Créditos:
Imagem do coração – colagem de Tyrone Dalby (encontrado aqui).
Imagem do corpo – colagem de Ben Giles (encontrado aqui)
Imagem dos pulmões – arte de Bedelgeuse (encontrado no Pinterest)